Estoque: o controle que sustenta a margem, o balanço e a distribuição de lucros
Pergunte a um lojista quanto ele faturou no mês passado e ele responde na hora. Pergunte quanto vale o estoque dele hoje e a resposta costuma ser um número redondo, dito com hesitação. O problema é que o segundo número comanda o primeiro: sem saber o custo do que foi vendido, não há como saber o lucro — e sem lucro conhecido não há margem confiável, preço correto nem distribuição de lucros com segurança.

GRL Accountability- O custo de aquisição do estoque inclui o valor da mercadoria, o frete de compra, o seguro e os tributos não recuperáveis — que, no Simples Nacional, são todos.
- O lucro do período é receita menos custo da mercadoria vendida: sem estoque correto, não existe custo correto e, portanto, não existe lucro conhecido.
- O inventário físico de fim de exercício é obrigação contábil e fiscal, e no Simples Nacional ele alimenta o registro de inventário exigido pela legislação.
- Estoque parado é dinheiro parado: o giro e a cobertura em dias dizem quanto capital a loja imobilizou, e é o indicador que mais explica caixa apertado com boa venda.
O que compõe o custo de aquisição
O estoque entra no ativo pelo custo de aquisição, e ele é maior do que o valor da nota do fornecedor. Compõem esse custo o preço da mercadoria, o frete de compra, o seguro do transporte, as despesas de desembaraço quando houver importação e todos os tributos não recuperáveis. Para a loja optante pelo Simples Nacional, que não credita ICMS nem contribuições, "não recuperável" significa tudo.
Descontos incondicionais obtidos do fornecedor reduzem o custo; bonificações em mercadoria aumentam a quantidade sem aumentar o valor, o que reduz o custo unitário. Registrar essas duas coisas corretamente é o que faz o custo médio da loja refletir a realidade — e é o custo médio que entra na planilha de preço.
O custo da mercadoria vendida, que define o lucro
A fórmula é antiga e não tem substituto: estoque inicial + compras do período − estoque final = custo da mercadoria vendida. O lucro bruto é a receita menos esse valor. Repare no que isso implica: um erro no estoque final vira, com sinal trocado, um erro exatamente do mesmo tamanho no lucro do período.
Uma loja que declara estoque final de R$ 180.000 quando o real é R$ 150.000 apura R$ 30.000 de lucro que não existe. Esse lucro fantasma tem duas consequências caras: se a empresa distribuir sobre ele, os sócios retiraram dinheiro sem lastro contábil, e a parcela distribuída além do lucro apurado deixa de ser isenta de imposto de renda; e se ela precificar sobre a margem aparente, venderá barato demais o ano inteiro.
O inventário anual não é opcional
A contagem física do estoque no encerramento do exercício é obrigação contábil de qualquer empresa que mantenha escrituração — e a escrituração contábil completa é o que sustenta a distribuição de lucros isenta acima do limite presumido. Do lado fiscal, o registro de inventário integra as obrigações previstas na legislação do Simples Nacional e, fora dele, alimenta o bloco de inventário da EFD ICMS/IPI.
- ✓ Contagem física, item a item, com data definida e paralisação das movimentações durante o processo.
- ✓ Inclusão do estoque em poder de terceiros: o que está no centro de distribuição da plataforma, o que está com transportadora e o que está em trânsito.
- ✓ Valoração pelo custo de aquisição, não pelo preço de venda, e com ajuste ao valor realizável líquido quando o produto perdeu valor de mercado.
- ✓ Documentação das diferenças: quebras, avarias, furtos e obsolescência precisam de registro, e não de ajuste silencioso na planilha.
Giro e cobertura: onde o caixa foi parar
Estoque é dinheiro em outra forma. Uma loja com R$ 150.000 em mercadoria tem R$ 150.000 fora da conta bancária, e é essa a explicação mais comum para o fenômeno de "vender bem e não sobrar caixa". Dois indicadores simples tornam isso visível.
O giro é o custo da mercadoria vendida no período dividido pelo estoque médio: um giro de 6 significa que a loja renovou o estoque seis vezes no ano. A cobertura é o inverso, expressa em dias: 365 dividido pelo giro. Um giro de 6 dá 61 dias de cobertura; um giro de 2 dá 183 dias — e significa que cada real comprado leva seis meses para voltar ao caixa.
Em quase toda loja, cerca de 20% dos itens respondem por 80% do faturamento. O restante inclui uma cauda de produtos que giram devagar, ocupam espaço, consomem capital e envelhecem. Uma curva ABC anual — ordenando os produtos por faturamento e por giro — mostra onde está o capital travado. A decisão dolorosa de liquidar o estoque parado quase sempre gera mais caixa do que qualquer campanha de aquisição, porque ele já foi pago e está apenas esperando virar dinheiro de novo.
O controle mínimo que funciona
Não é preciso um sistema de gestão caro para começar, mas é preciso um lugar único da verdade. Cada entrada registrada pela nota de compra, com custo unitário. Cada saída baixada pela venda. Contagem cíclica de uma parte do estoque toda semana, de modo que o inventário completo seja apenas a confirmação de algo já sabido, e não uma descoberta. E, ao menos uma vez por mês, a conciliação entre o estoque do sistema e o das plataformas onde há mercadoria armazenada.
Quando essa rotina existe, a contabilidade deixa de ser um relatório entregue depois do fato e passa a produzir a informação que a loja usa para decidir: qual produto repor, qual liquidar, quanto capital está imobilizado e quanto realmente sobrou no período.
Fontes: Lei nº 6.404/1976, art. 183, II; NBC TG 16 (Estoques), quanto à composição do custo de aquisição e à mensuração pelo menor valor entre custo e valor realizável líquido; Lei Complementar nº 123/2006, art. 26, e Resolução CGSN nº 140/2018, art. 63, quanto aos livros e registros exigidos; Lei nº 10.406/2002 (Código Civil), art. 1.179. Texto conferido na fonte oficial em 8 de setembro de 2026. Confirme os controles da sua loja com a GRL Accountability.
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